(Foto da Leitura Dramática do Texto Mulheres Nuas
com Márlio da Silva & Morgana Padoim)
Monólogo.
Adalgisa,
uma mulher que tem um marido droga-adicto e machista e quer se libertar
dele. O marido é representado por pó.
Serej,
a mordomo, empregada, secretária de Adalgisa. (Uma espécie
de mordomo às avessas) que lhe realiza todos os seus pedidos ao
contrário.
Liebe,
é a filha de Adalgisa. Uma personagem que vive só em função
das necessidades físicas básicas.
(c)1997.
Marlio daSilva
Trechos:
Adalgisa
agarra Serej pelo braço e a leva até o banco
do psicanalista. As duas Sentam-se no banco situado no palco e estão
no consultório. Liebe é a terapeuta dormindo, Serej
representa alguém lá lendo revistas. Leitura estroncha de
títulos absurdos tirados das manchetes locais.
Agora
eu já não consigo mais mesmo saber por que que eu vim aqui.
Ah, porque eu não consigo me livrar daquele meu marido, aquele drogadito,
cocainômano, junk. E ainda por cima caio de fraqueza pelo vagabundo
e ainda acabo dando pra ele. Não consigo me livrar daquela peste.
Se ele é ruim. Aquilo já virou pó. Tu não imagina
mais. É tanto que ele mesmo já virou pó. Tu não
destingue mais quem é ele, que é a droga.
Se o
seu filho é só maconheiro a senhora precisava ver o meu marido.
maconha pra ele é mato. Ele come bolo de maconha, toma cerveja,
fuma inveteradamente, agora ate roupa de maconha ele tem. Isso eu nem ligo
mais, e o pó da cocaína já acostumei. Ai pra acalmar
da cocaína ele usa heroína, pra acabar com o peru frio ele
usa mescalina. Usa êxtase pra sorrir, ácido prá rezar,
cachaça prá dançar. é tanta loucura que agora
o barato dele é se drogar com coisa que não da barato. então
de repente pego ele cheirando a parede ou aplicando sopa nas veias. E eu
o que que eu faço? Eu sou uma idiota que ainda dou pra ele e tenho
que vir aqui nesta porra de analista? ficar 3 horas nesta sala conversando
com vocês, suas imbecis, que vem ao analista com o cachorrinho. por
que vocês trazem, cachorrinho prô analista? e essa porra desse
homem, hein? eu vou ficar aqui porra nenhuma. eu já sei o
que fazer. o analista só serve pra justificar minha idiotice, eu
sei muito bem o que fazer. eu vou pra casa e dar um chute na bunda deste
pilantra e mostrar pra ele que se ele quer se drogar o resto da vida, não
fazer mais nada ele que vá morar com a mamaezinha dele, aquela generala
filantrópica, amestradora de pulgas filosóficas, antro de
amor descarnado. ele vai ver quem é o homem da casa, cornudo...
vou dizer pra ele pra quem que eu dei todos esses nossos anos de casados.
Aquela
nossa casa na armação nunca ficou pronta porque eu dava tudo
dia prô pedreiros. e tu trocavas de pedreiro toda as semanas, mas
eles sempre voltavam. Voltavam pra trabalhar de graça. de hora em
hora eu ia lá pra dar uma metidinha. deixavam eles chuparem o meu
pau ate se cansarem. e depois enfiavam o deles na minha buceta quando se
cansavam de enfiar o pau enfiavam de tudo que viam pela frente. o carrinho
de mão, enxadas, pás.
Aí
eu ía prá casa e fazia a higiene na nossa suíte. Era
como parir todas as tardes. Parir material de construção.
Todas às vezes que entravas lá, perguntavas se estávamos
reformando-a. Por causa de todas aqueles apetrechos que encontravas. Mas
eu tirava tudo da buceta e nem percebias. lembra que a casa da armação
nunca ficava pronta? cada vez mais contratavas pedreiros e era preciso
novamente comprar mais ferramentas.
É que
quando a casa estava quase pronta eles desmanchavam e começavam
tudo de novo, só pra me comerem. enfiarem em mim caralhos, baldes,
cimento, ferraria, pás, faziam da minha vagina uma betoneira. tu
fostes a falência, com uma obra interminável com 32000 trabalhadores
e eu fiz da nossa suíte uma rede de materiais de construção,
a B C T . Só assim pude viver, pois nunca me destes um tostão,
quando te recolhestes falido prás ilhas virgens.
(...)